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"Um ano solitário", de Alice Oseman

Por Mariana Borges*

marianaborgessilva1@gmail.com

“Um Ano Solitário” (“Solitaire”, no original), é o primeiro romance jovem adulto escrito por Alice Oseman, quando a autora tinha apenas 17 anos. Atualmente, não vejo alguém melhor para escrever sobre e para adolescentes (e não só para esse público!) do que Oseman. Mas mais do que uma aventura adolescente, aqui temos a jornada de uma pessoa lidando com sua identidade, tentando se descobrir, pensando em sua saúde mental, abordando transtornos psicológicos e trazendo o espaço virtual como um possível esconderijo e fuga (irônico, não?). Enfim, muito do que faz parte do cotidiano de adolescentes e que já, ou ainda, enfrentamos.

Como toda obra de Oseman, esta também vem com o aviso de “alerta de gatilhos”, e eu posso garantir que há muitos! É, na minha opinião, a obra mais pesada desse universo. Por isso, eu indico que você faça essa leitura apenas quando estiver se sentindo bem mental e psicologicamente, tá? Apesar de uma carga pesadíssima, Alice escreve com muita responsabilidade e trata de forma realista os distúrbios mentais, bem como sempre indica sites para que os leitores os busquem caso precisem de ajuda. Diferente de “Heartstopper”, os distúrbios aqui não são tratados de forma leve, então leia com calma.

Em relação à cronologia, nós sabemos que isso não é totalmente importante para você aproveitar as obras, mas pensando no Osemanverse, este romance ocorre nos meses de janeiro e fevereiro em relação ao quarto volume de “Heartstopper”, próximo aos acontecimentos de “This Winter”.


"Nobody is honest, nobody is real. You can't trust anyone or anything. Emotions are humanity 's fatal disease. And we're all dying".

“Ninguém é honesto, ninguém é real. Não podemos confiar em ninguém e em nada. Emoções são a fatal doença da humanidade. E estamos todos morrendo” (tradução minha, pois li a obra em inglês)


Tori Spring - sim, a irmã mais velha de Charlie Spring, nosso queridinho de “Heartstopper” - está cursando o seu penúltimo ano do Ensino Médio. Ela é uma adolescente que performa muito bem o estilo Wandinha Addams e cuja rotina se resume a ir à escola, tomar limonada, ficar no computador e escrever para seu blog repleto de pessimismo crônico (vide a frase acima). Ela simplesmente odeia tudo e tem apenas uma certeza: um dia vai morrer. Porém, algo acontece para mudar um pouco essa rotina e atormentar (ainda mais) os pensamentos de Tori: surge um misterioso grupo intitulando-se “Solitaire” (preste atenção neste!), e que passa a pregar peças e causar um alvoroço na escola que Tori frequenta.

A princípio, tudo isso não interessa nem um pouco a ela, mas são tantas coincidências entre os ocorridos e sua vida, que a jovem Spring percebe que não basta estar ali e não viver, ela precisa agir e, para isso, amigos e família são essenciais. Porém, Tori está enfrentando um caminho bastante obscuro com seus problemas psicológicos - depressão implícita -, bem como os de seu irmão do meio, e tudo isso reflete na forma como ela reage aos acontecimentos e age para com pessoas próximas a ela. É neste momento crucial que surge um dos personagens que eu mais amei nesse universo todo: Michael Holden, novo aluno e que está disposto a se tornar amigo de Tori. É uma delícia ver as trocas de mensagens entre eles, pois Alice utiliza este recurso de forma brilhante, como sempre.

Além de Michael, através da narrativa pelo ponto de vista de Tori, conhecemos sua melhor amiga Becky e um amigo que há muito ela não tinha contato: Lucas. Contudo, Tori vive questionando o porquê pessoas se interessam em serem amigas dela, visto que ela mesma se considera um “fantasma”, uma pessoa desinteressante e que não acrescenta em nada. Então, como é possível alguém querer ser seu amigo?

É um processo difícil ler sobre a dificuldade de socialização e o bloqueio social e pessoal que Tori enfrenta. A forma como para ela tudo é escuro, uma estrada cujo fim sempre está próximo, é angustiante e real. Mas é isso, também, que faz com que este romance se torne tão bom! Para justificar ainda mais esse ponto de vista, vou pegar emprestada esta fala de Tori de quando ela se refere aos livros e justifica que é por isso, por ser tão real, que ela repugna a leitura: “você está lá na história, como o personagem principal”. E foi justamente assim que me senti ao ler ”Um ano solitário”: vivenciei todas as angústias, ânsias e medos de Victoria Spring, mas com a certeza de que “tudo que sei é que estou aqui, estou viva e não estou sozinha” e não repugnei a leitura em momento algum, não há como!


* Mariana Borges é professora de Língua Inglesa, Tradutora e participante do Clube de Leitura LITERISTÓRIAS. Atualmente administra a página @viva.olivro no Instagram, onde fala de seus autores, leituras, filmes e seriados favoritos.

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