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“Os Contos de Beedle, o Bardo”, de J.K. Rowling

Por João Marcos*

Os Contos de Fadas do mundo bruxo


Cinderela, Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho. Estas são personagens recorrentes no imaginário popular. Gostando ou não, elas estão presentes nos filmes, festas de aniversário e lojas de brinquedos. O que elas têm em comum? Saíram da oralidade e passaram a fazer parte da cultura geral, sem distinção de Oriental e Ocidental, visto que a possível origem da história da Gata Borralheira está na China. Incrível, não é?

Pois bem, em Os Contos de Beedle, o Bardo, lançando pela primeira vez em 2008, J. K. Rowling descortina aspectos do mundo bruxo que não tínhamos acesso. Para os fãs da saga, o título já era familiar, pois em Harry Potter e as Relíquias da Morte (2007), Hermione se questionava sobre a autenticidade dos contos enquanto Harry era duramente massacrado sobre a certeza da existência das tais relíquias apresentadas em O Conto dos Três Irmãos.

Mas isso tudo foi bem planejado. Na mitologia criada por Rowling, o mundo bruxo também compartilha de histórias antigas, perpetuadas durantes gerações e que assustam e fascinam os jovens bruxos. Assim sendo, no livro em questão somos imersos novamente na cultura bruxa, mas, desta vez, conhecendo os seus aspectos básicos por meio de cinco contos carregados de simbolismos:


1. O Bruxo e o Caldeirão Saltitante

No primeiro nos deparamos com o famoso e consagrado “era uma vez”. Nele, lemos a história de um bruxo que era grande amigo dos trouxas e que, por conta de seus poderes mágicos, era sempre procurado por eles. Quando o bruxo veio a morrer, o filho herdou o seu caldeirão e uma pantufa velha. Porém, desprezando tais objetos, ele passou a ser rude com os trouxas que o procuravam.

O tempo foi passando e o caldeirão começou a se transformar: surgiu um pé, verrugas e até vômitos que transbordavam lesmas por onde passava. Isso tudo foi deixando o filho ainda mais impaciente e descontente até que, ao fim, se viu forçado a aprender lições sobre bondade e empatia para que conseguisse se livrar do caldeirão que o perseguia.

Dentre os temas abordados no conto está o da necessidade de convivência pacifica entre trouxas e bruxos (algo que é também discutido durante os sete livros de Harry Potter – mas isso já é assunto para outro momento!).


2. A Fonte da Sorte

Aqui temos a história das bruxas Asha, Altheda e Amata que estão em busca de resolver seus problemas pessoais, tanto de saúde quanto sentimentais. E para isso, as três rumam em direção à Fonte da Sorte (localizada em um jardim encantado) que, de acordo com a crença, propicia sorte para uma vida inteira àqueles que nela se banham.

Durante o trajeto rumo à fonte, as bruxas encontraram o Cavaleiro Azarado e, juntos, eles se depararam com enigmas e provações que acabam por literalmente transformar suas vidas. Nesse conto, Rowling explicitamente explora o conceito de trabalho em equipe, discute o tema da empatia e novamente traz um dos aspectos comuns aos contos de fadas: o de uma lição de moral.

O curioso de "A Fonte da Sorte" é que ela me faz lembrar o relato bíblico registado no livro do evangelho de João, capítulo 5, no qual é narrada a história de um paralitico que ficara muitos anos esperando sua cura no tanque de Betesda, pois “de vez em quando descia um anjo do Senhor e agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, depois de agitadas as águas, era curado de qualquer doença que tivesse (5:4). Se J. K. se inspirou nessa passagem bíblica não sabemos, mas as semelhanças são grandes.


3. O Coração Peludo do Mago

Dentre as cinco histórias apresentadas em Os Contos de Beedle, o Bardo, esta é a mais violenta e sangrenta, digna de um relato dos Irmãos Grimm. Nele, temos a história de um jovem príncipe bruxo que tem medo de se apaixonar e, por conta disso, usa de magia das trevas para suprimir o sentimento do amor.

Porém, com o passar do tempo, todos estranham a condição do príncipe e ao ouvir a conversa de dois de seus criados, ele resolve que, para demonstrar o seu poder, arranjará uma esposa. O conto tem um fim trágico e nele aprendemos um pouco sobre como a vaidade e a fome pelo poder podem ser fatais.

Nos momentos finais, quando o coração do príncipe é desnudado, relembrei uma passagem de C.S. Lewis presente em seu livro Os Quatro Amores (1960) que, por ser tão interessante, revolvi trazê-la na integra aqui:


Amar é sempre ser vulnerável. Ame qualquer coisa e certamente seu coração vai doer e talvez se partir. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, você não deve entregá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em seus hobbies e pequenos luxos, evite qualquer envolvimento, guarde-o na segurança do esquife de seu egoísmo. Mas nesse esquife – seguro, sem movimento, sem ar - ele vai mudar. Ele não vai se partir – vai tornar-se indestrutível, impenetrável, irredimível. A alternativa a uma tragédia ou pelo menos ao risco de uma tragédia é a condenação. O único lugar além do céu onde se pode estar perfeitamente a salvo de todos os riscos e perturbações do amor é o inferno.

4. Babbitty, A Coelha, e seu Toco Gargalhante

Cômico e divertido, nesse quarto conto temos um rei trouxa egoísta que ordena que todos os bruxos de seu reino sejam caçados por uma Brigada de Caçadores de Bruxos que ele mesmo havia formado. Porém, sendo também um hipócrita, ele deseja aprender magia e, assim, acaba por procurar alguém que possa ensiná-lo. Vendo isso como uma oportunidade para ganhar dinheiro fácil, um trouxa charlatão se candidata ao cargo sem saber que seus passos estão sendo secretamente observados por Babbitty, a lavadeira do palácio.

Em um primeiro momento, os truques do trouxa charlatão impressionam o rei. Babbitty, por sua vez, zomba dos “encantos” e “rimas sem sentido” feitas pelo monarca a mando do charlatão. Quando este acaba por ser desafiado a demonstrar seus supostos poderes diante de todas as pessoas do reino, contudo, o conto apresenta um plot twist de deixar todos os leitores boquiabertos.

Se necessária uma comparação, eu diria que o conto A roupa nova do rei, do dinamarquês Hans Christian Andersen, foi uma provável inspiração. Se você não o conhece, recomendo a leitura.


5. O Conto dos Três Irmãos

O último e mais famoso conto deste livro carrega uma carga simbólica que permeia toda a saga do menino que sobreviveu. Apresentado primeiramente ao público no romance Harry Potter e as Relíquias da Morte, ele narra a história de três irmãos que se encontram com a Morte e recebem dela, como presentes, três itens: a varinha mais poderosa do mundo, a pedra da ressurreição e a capa da invisibilidade.

Cada irmão segue rumos diferentes e lida com os objetos de formas distintas. Se você já leu o último romance de “Harry Potter”, conhece toda a mitologia que foi criada no mundo mágico a partir deste conto e sabe que, ao final, o destino de dois dos irmãos não é nada bom.

Cabe ressaltar que, de acordo com a própria J. K., O Conto dos três irmãos foi livremente inspirado em O Vendedor de Indulgências, uma das histórias que compõe a obra “Os Contos da Cantuária” escrita por Geoffrey Chaucer e publicada em 1387. Diferente da história criada por Chaucer, no entanto, o conto de Rowling condensa um dos principais argumentos que é defendido ao longo dos sete livros de Harry Potter: a necessidade de aceitarmos que somos mortais.


Fins e começos


A saga Harry Potter é realmente um mundo diverso e complexo que foi forjado na mente de uma grande escritora. Tendo lido ou não os sete livros principais da saga, Os Contos de Beedle, o Bardo é um convite ao lúdico, à fantasia e à nostalgia que conseguimos obter lendo contos de fadas.

A sua primeira edição, publicada no Reino Unido e no Brasil em 2008, foi magistralmente ilustrada pela própria autora. Tais desenhos, marcados por traços simples, dão um aspecto mais “familiar” ao livro. Atualmente, vocês podem escolher ter esta primeira edição (em brochura e capa azulada) ou a nova, lançada no Reino Unido em 2018 e aqui no Brasil no segundo semestre de 2021, em capa dura e com ilustrações feitas pelo britânico Chris Riddell (algumas das quais, aliás, acompanham esta resenha).

Independente de qual edição escolher, em ambas encontrará comentários feitos por ninguém menos que Alvo Dumbledore, o que enriquecerá bastante a sua leitura e conhecimento sobre o mundo bruxo criado por J. K. Rowling.



* João Marcos é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA); escritor de fantasia; autor dos contos "Ninfas de Lama" (publicado na antologia “Arrependa-se” em 2019) e "Cidade dos Mortos" (publicado em “Prenuncio do Medo: Morte” no ano de 2020); e organizador da antologia "A Maldição do Tesouro" (2021). Também no ano de 2021, lançou o livro-reportagem "À Sombra da Gameleira: histórias e memórias da cidade de João Lisboa". Você pode conhecer mais sobre o trabalho dele no perfil do Instagram @jjoamarcos


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