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"David Copperfield", de Charles Dickens

Por Maria Cristina Shimabukuro* e Maria Célia Romão**

Aos amantes da história da Inglaterra que nutrem o desejo de viajar no tempo, indicamos um caminho possível: a leitura de "David Copperfield", o romance de formação com ares de autobiografia que foi escrito pelo autor inglês Charles Dickens e publicado no ano de 1850.

Por meio desta obra envolvente, cativante e emocionante, torna-se possível visitar uma Londres vitoriana marcada pelas mazelas advindas das consequências da primeira e segunda revoluções industriais; uma cidade coberta pela fuligem exalada pelas chaminés das fábricas do início da era do capital; um tempo marcado pelas desigualdades sociais, cortiços, ruas com esgotos a céu aberto, construções deterioradas e ocupadas pela população mais carente; população essa sem perspectiva de educação, saúde, alimentação, moradia e empregos dignos e marcada pela exploração do trabalho infantil e da barata mão-de-obra das mulheres.

Este é o mundo inglês escolhido por Charles Dickens para ambientar o seu romance e desenvolver a história do personagem David Copperfield. E com maestria, Dickens retrata não só a sociedade industrial, como também diversos dos problemas de sua época, a saber: a orfandade, o trabalho infantil, a prostituição, a educação, a vida nas prisões e os papéis sociais atribuídos às mulheres. Esse último, por sinal, é um dos temas que mais nos chamou a atenção - e também nos trouxe incômodos - ao longo da leitura e, por isso, merece um comentário mais detalhado nesta resenha.

De maneira geral, as personagens femininas casadas (ou que já foram casadas) de “David Copperfield” são representadas de formas positivas. Em um contexto onde as mulheres adultas só adquiriam um status aceitável na sociedade se estivessem sob a dependência de um marido, a maior parte delas ocupam posições 'confortáveis' e são mostradas como felizes no matrimônio. A exceção está em Clara Copperfield, mãe de David, que sofre nas mãos de seu segundo e tirano marido, o Sr. Murdstone. E, de certa forma, em Dora Spenlow, a primeira esposa de David que é retratada como frágil, mimada e tola. A caracterização de mulheres adultas solteiras, contudo, não é nada positiva e personagens como Jane Murdstone e Rosa Dartle são colocadas na narrativa como cruéis, amargas e histéricas.

Até os dias de hoje, a histeria (derivado da palavra grega hystera, termo que tem origem na palavra útero) é associada às mulheres, como se a falta da presença de um homem ao lado delas necessariamente significasse estarem mal resolvidas, mal amadas e, portanto, determinasse um comportamento agressivo e desequilibrado. Dickens, aparentemente, compartilhou de tais ideologias na forma com que construiu as 'solteironas' de seu romance. Em contrapartida, chama a atenção a recusa do autor em mostrar personagens do gênero masculino tendo atitudes equivalentes às de Jane e Rosa. O Sr. Strong, por exemplo, é compreensivo, sábio, humilde e equilibrado mesmo diante da suspeita de traição de sua esposa. Ham compreende e mantém-se carinhoso para com Emily mesmo após ela fugir com Steerforth. Tal capacidade de entendimento, controle e discernimento é exclusiva do gênero masculino? Ora, se isso fosse verdade, não teríamos esse alto índice de feminicídios nos dias atuais, não é mesmo?

Ainda que as personagens de "David Copperfield" sejam muito bem construídas, ao olharmos para o romance por meio de uma perspectiva de gênero encontramos nele algumas ideologias e crenças nocivas sobre os femininos que são próprias da Era Vitoriana. E o que nos assusta não é necessariamente visualizarmos a presença de tais discursos típicos do século XIX num livro escrito naquele século, mas sim percebermos que muitos deles ainda pipocam em determinados setores das sociedades atuais.

Inúmeras conquistas sociais e políticas foram obtidas desde a época de Dickens, é verdade. Mas, algumas situações de opressão - seja de gênero ou de classe - representadas no livro ainda nos são familiares. Isso, de certa forma, faz com que este romance pareça atual e possibilita que, a cada capítulo, reflitamos criticamente sobre o mundo em que vivemos. Como indicamos no início desta resenha, ler "David Copperfield" é uma oportunidade de viajar no tempo. Cabe dizer que é, também, uma oportunidade de pensarmos sobre o nosso próprio tempo e o que queremos para o nosso futuro.


* Maria Cristina Shimabukuro é Bacharel e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP), formada em Canto Popular pela Universidade Livre de Música Tom Jobim (ULM) e participante do Clube de Leitura LITERISTÓRIAS.


** Maria Célia Romão é professora aposentada, formada em Ciências Sociais (PUC Campinas) e em História (Fac. Plínio Augusto do Amaral) e participante do Clube de Leitura LITERISTÓRIAS.

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